Cinco anos sem Valdo Varjão

15/10/2013 10:08

EDUARDO GOMES - Muitos participaram da construção social e do desenvolvimento econômico do Vale do Araguaia. Figura ímpar por sua inteligência, criatividade, honestidade e visão futurista, Valdon Varjão foi um dos destes vultos. Afirmar que Valdon foi a água mais limpa do Araguaia é a melhor maneira de sintetizar sua obra. Seu adeus há cinco anos deixou um enorme vazio na região que tanto amava e defendia.

Criterioso, legalista e incorruptível. Com estes predicados Valdon atuou no Cartório do 1º Ofício do Registro de Imóveis da Comarca de Barra do Garças, do qual foi titular. Sua seriedade profissional de quem tinha fé pública impediu que se repetisse no Vale do Araguaia, com a intensidade que acontecia em outras regiões, a sobreposição de títulos e as maracutaias cartoriais pela posse da terra.

Valdon era cartorário numa comarca que se estendia de seus limites com Guiratinga até o Pará, numa faixa delimitada pela margem esquerda do rio Araguaia e a direita do Xingu – o que lhe rende o nome de Intervales - numa área onde hoje se localizam entre outros os municípios de Canarana, São Félix do Araguaia, Vila Rica, Ribeirão Cascalheira, São José do Xingu, Araguaiana, Porto Alegre do Norte, Confresa, Alto Boa Vista, Nova Xavantina, Canabrava do Norte, Cocalinho, Bom Jesus do Araguaia e Luciara e que era maior que alguns países da Europa.

No final dos anos 1960 o Brasil voltou seu olhar ao Araguaia. Grandes grupos empresariais investiram em agropecuária naquela área com financiamento da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) em nome do programa federal do “Integrar para não entregar”. Paralelamente a isto, milhares de migrantes nordestinos, goianos e de outras regiões ocuparam terras no vazio demográfico e também invadiram propriedades que desenvolviam atividades agropecuárias. Os grandes interesses em jogo eram mantidos dentro dos limites da legalidade, pelo menos no tocante à averbação das escrituras por Valdon, numa época que não havia georreferenciamento nem outras ferramentas que facilitassem a definição fundiária.

Respeitado por todos, Valdon era fonte permanente de consulta aos interessados em investimento no Araguaia. Sua palavra era lei e ele mostrava o caminho certo. Quando alguém dependia de documento em Cuiabá e o procurava neste sentido, nunca ouvia não: bastava um telefonema seu e pronto!

A rotina no cartório não o impediu de produzir 28 obras literárias, com foco especial no garimpo e no humanismo. Valdon escreveu com maestria sobre a vida nas grupiaras e soube retratar muito bem o universo dos garimpeiros de diamante no lendário rio Garças. Seu dom pela literatura o levou a ser um dos fundadores da Academia de Letras, Cultura e Artes do Centro-Oeste e o fez membro das academias: Mato-Grossense de Letras, Maçônica de Letras (em Mato Grosso), Paulistana de História; Piracicabana de Letras e Anapolitana de Filosofia, Ciências e Letras. Valdon também foi membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes e membro-fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, em Cuiabá.

Cartório sempre foi janela para o surgimento de políticos. Em Barra e região Valdon soube aproveitar muito bem essa realidade. Tanto assim, que foi vereador, prefeito, deputado estadual, suplente de deputado federal, suplente de senador e senador. Ao assumir cadeira no Senado, nos anos 1970, se tornou o primeiro senador negro do Brasil.

Em suma. De seu nascimento em 15 de dezembro de 1923 em Cariús, Ceará, ao dia 3 de fevereiro de 2008, quando fechou os olhos para sempre, Valdon Varjão foi de tudo um pouco: comerciante, garimpeiro, contabilista, advogado, historiador, mas o que ele gostava mesmo era da profissão que abraçou - cartorário.

BARRA TURÍSTICA

Barra do Garças é considerada cidade mística. Em seu entorno desapareceu o coronel inglês Percy Harrison Fawcett e sua comitiva, no ano de 1925. Alguns ufólogos acreditam que Fawcett teria encontrado a cidade “Z”, que procurava e acreditava que se localizasse sob a Serra do Roncador, onde viveria uma civilização bem avançada no comparativo com os habitantes da Terra. Outras correntes apostam que ele teria sido canibalizado por índios do Xingu.

Com imensurável potencial turístico Barra é o encontro das águas do Garças com o Araguaia – de onde lhe vem o nome. A cidade é cercada por serra, tem lindas cachoeiras e um parque aquático com águas termais. Além das belezas naturais o misticismo pesa a seu favor.

Na tentativa de aquecer e diversificar o turismo Valdon idealizou a construção de um discoporto no topo da Serra Azul no parque estadual do mesmo nome, ao lado da cidade. A proposta surgiu no final dos anos 1990, quando Valdon era vereador pelo PFL.

A criação do discoporto foi aprovada pela Câmara e sancionada pelo prefeito Wanderlei Farias, à época correligionário de Valdon. Para alguns a ideia parecia hilária e até irresponsável. Outros a consideraram interessante. Em meio ao fogaréu das opiniões a prefeitura construiu a obra, que levou a chancela do mago dos efeitos especiais da Rede Globo, Hans Donner – que não cobrou pelo projeto.

O discoporto divulgou Barra e Valdon ganhou espaço nos principais programas de televisão e nos grandes jornais e revistas. Porém, a prefeitura não soube explorar o lado turístico da obra inédita, que se encontra praticamente abandonada no topo da Serra Azul, ao lado de um radar do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta), da Aeronáutica.

O prefeito da época e seus sucessores não souberam transformar o discoporto em roteiro do turismo nacional. Valdon lamentava essa falta de visão administrativa. Ele sonhava em misturar sua obra com o desaparecimento de Fawcett e uma apimentada dose de supostas incursões de esverdeados marcianos na região, para despertar interesse da indústria do turismo por sua Barra.

Valdon sabia que o desparecimento de Fawcett mexe com o imaginário coletivo na Inglaterra. Sabia que Indiana Jones, personificado por Harrison Ford e criado pela genialidade de Steven Spielberg e George Lucas tem apelo popular no mundo inteiro. Por isso, sonhava em transformar a Barra na Meca do misticismo. Pesava também favorável a este plano a presença na região de instituições filosóficas e místicas, a exemplo da Sociedade Brasileira de Eubiose. No entanto, o cartorário levou para o túmulo seu pensamento, que não encontrou eco naquela que foi uma das principais cidades de Mato Grosso e hoje foi superada por novos municípios a exemplo de Sinop, Sorriso, Tangará da Serra e outros.

Valdon partiu deixando um legado com pegadas de sabedoria. Resta a a Mato Grosso saber trilhá-las

 

Informações: MT AQUI