Depressão profunda é causa do afastamento da tenente Izadora Ledur

11/08/2017 - Depressão profunda é causa do afastamento da tenente Izadora Ledur

Os 6 atestados médicos apresentados pela tenente do Corpo de Bombeiros Izadora Ledur de Souza, que a mantém afastada da corporação, estão relacionados a questões psicológicas, mais especificamente a uma depressão profunda, segundo relata o presidente da Associação dos Oficiais da Polícia e Bombeiro Militar de Mato Grosso (Assof-MT), tenente-coronel da PM Wanderson Siqueira. Segundo ele, a tenente “entrou em uma crise depressiva com questões internas ao ponto de pensar em tirar a própria vida, de relacionar a morte (de Rodrigo) com a conduta dela”. Afirma que Ledur chegou a ser internada em uma clínica para tratamento, que deixou a casa dela e não sai mais da casa dos pais e ninguém a deixa sozinha por medo do que “ela pode fazer”.

 

Apesar de reconhecer as falhas durante o treinamento aquático e defender que sejam tomadas providências, a Assof afirma que a tenente não foi responsável pela morte do aluno Rodrigo Claro, ao contrário do que aponta a denúncia oferecida pelo Ministério Público do Estado e recebida pela Justiça estadual.

 

Após as conclusões dos inquéritos policial e do Corpo de Bombeiros, aos quais a associação teve acesso, Wanderson diz que a Assof identificou duas situações distintas, que de acordo com o presidente precisam ser tratadas. Uma diz respeito à forma de trabalho e conduta da tenente durante o treinamento, que na opinião da associação precisa ser averiguada e, caso haja erros, Ledur ser responsabilizada. Outra diz respeito à morte de Claro, que para o tenentecoronel não há nenhuma relação com o treinamento. “Temos tranquilidade em dizer isso”.

Segundo ele, o laudo da perícia demonstrou que Rodrigo Claro não tinha nenhuma lesão pelo corpo, não tinha água no pulmão, não tinha ferimentos internos, e que ele teria morrido de “hemorragia intracraniana e de causa natural”. Conforme Siqueira, a família de Rodrigo teria histórico de aneurisma. Com base nos depoimentos dos alunos que concluíram o curso, Wanderson afirma que foi possível chegar à conclusão que a morte de Rodrigo não teve relação com o treinamento.

Em relação às demais denúncias da conduta da tenente, antes e depois da morte de Rodrigo, o presidente da Assof afirma que precisam ser investigadas. “Se ela tem alguma conduta de maus tratos a alunos, precisa ser responsabilizada, mas não em relação à morte do Claro, que ela não tem culpa”.

Wanderson afirma que não há dúvidas de que houve falhas que precisam ser responsabilizadas no caso de Rodrigo como, por exemplo, o aluno ter saído sozinho do local de treinamento passando mal. “Mesmo que ninguém tenha relação com a doença que levou à morte dele, o mínimo que deveria ter acontecido ali é um cuidado diferenciado com uma pessoa que diz não estar passando bem”. Destaca que era necessário a ambulância ou que alguém o acompanhasse até o médico. “A instituição tem que aprender com isso para que não volte acontecer. Mas tudo isso são transgressões que não quer dizer que foram decisivas para morte do Rodrigo”.

Em relação aos 6 atestados médicos apresentados pela tenente, que atrapalham a conclusão do Conselho de Justificação, Wanderson afirma que os 2 inquéritos (Militar e Civil) foram concluídos e a Ledur participou de tudo, porém ela entrou em uma “crise depressiva”, foi internada, e está “devastada”. “Ela é uma mulher e como 99% das mulheres, onde o emocional é mais aflorado e ela ta devastada”.

Ainda conforme ele, quando tudo aconteceu Ledur chegou a ser proibida de falar com a imprensa pelo antigo comandante da instituição. “No primeiro momento ela cumpriu uma determinação, já no segundo momento ela ficou abalada com tudo o que saiu sobre ela”.

O presidente explica que a tenente foi procurada pela associação, que conversou com ela e não satisfeito foi atrás dos inquéritos e, aí sim, a Assof teve condições de falar por ela. “Até para falar ela não está legal”.

Questionado quanto aos depoimentos que constam na denúncia oferecida pelo Ministério Público contra a tenente e mais cinco oficiais, por tortura com resultado morte, e quanto as várias outras denúncias que surgiram contra ela no decorrer desse processo, o presidente da Assof afirma acreditar que existe uma situação em que os alunos não gostavam da tenente e que no momento dos depoimentos eles “aproveitaram” a situação.

Segundo Wanderson, em termos de qualificação e especialização para área ministrada pela tenente, ela é a “mais preparada no Estado de Mato Grosso”. Ele afirma que Ledur é campeã brasileira de atividades de bombeiros. “Ela realmente é uma pessoa muito preparada”.

Quanto à disciplina em que a tenente é especialista, treinamento aquático, o representante da associação esclarece que existem “nuances” diferentes de outros treinamentos, já que os bombeiros precisam ser preparados para atender uma vítima que no momento do afogamento “desenvolve um pavor e uma força, e não rara vezes acaba matando quem tenta salvá-la”.

No treinamento segundo ele, são abordados todas as possibilidades e o aluno precisa ser ensinado, por exemplo, sobre a sensação do afogamento, quais as fases, o que fazer para se “desvencilhar” de uma vítima, e alguns alunos confundem essas “técnicas” com maus-tratos e torturas. “Eles precisam ser ensinados porque senão daqui a pouco teremos bombeiros morrendo tentando salvar as vítimas”.

Conforme ele, o fato de um aluno mergulhar e quando voltar à superfície ele ser “retido” por alguns segundos para que ele tenha a sensação do que é “ingerir” água, e depois ele ser colocado em segurança novamente, “acontece e faz parte do treinamento”. Explica que alguns dos motivos da tenente ter sido denunciada na instituição, pode ter ocorrido por causa de técnicas como essas, e a corporação chegou à conclusão que o que foi relatado eram atividades que estavam dentro do manual.

Após a conclusão de todo o caso, Wanderson explica que a Assof defende a volta da tenente à corporação. “Existem outras áreas na Corporação”, disse o tenente-coronel ao ser questionado se ela teria condições de retornar aos Bombeiros.

 

 

Dantielle Venturini, repórter de A Gazeta